top of page

“A alienação é obrigatória, mas a separação é uma conquista” uma leitura pela Terapia do Esquema

  • Foto do escritor: Camila Moreira
    Camila Moreira
  • há 23 horas
  • 3 min de leitura
Essa frase, muito conhecida na psicanálise, descreve algo fundamental sobre o desenvolvimento humano: nós não nascemos prontos, nos tornamos quem somos a partir das relações e, principalmente, das primeiras relações da nossa vida.

Na Terapia do Esquema, isso pode ser compreendido de forma bastante clara.
A alienação, nesse contexto, pode ser entendida como esse momento inicial em que a criança depende completamente do outro para existir emocionalmente. Ela precisa se adaptar ao ambiente, aos cuidadores, às regras implícitas da família. Para manter o vínculo que é essencial para a sobrevivência muitas vezes ela abre mão de partes de si mesma.

É aqui que começam a se formar os esquemas.
A criança aprende, por exemplo:
  • “Para ser amada, preciso agradar” (direcionamento para o outro)
  • “Não posso sentir, isso incomoda” (inibição emocional)
  • “Se eu for quem eu sou, serei rejeitada” (defectividade)

Ou seja, a alienação não é uma escolha é uma necessidade adaptativa. Ela garante pertencimento, proteção e continuidade do vínculo.
Mas essa adaptação tem um custo: a perda, parcial ou total, da espontaneidade e da autenticidade.

A separação como processo e não como ruptura.
Já a separação, na perspectiva da Terapia do Esquema, não significa afastamento físico ou rejeição do outro. Separar-se é, na verdade, diferenciar-se.

É o processo de construir um senso de identidade próprio, capaz de:
  • Reconhecer suas necessidades emocionais
  • Estabelecer limites
  • Fazer escolhas menos baseadas no medo e mais na própria inclinação
  • Sustentar vínculos sem se anular

E aqui está o ponto central: isso não acontece automaticamente.
Enquanto a alienação é obrigatória, a separação exige desenvolvimento emocional.

Por que a separação é tão difícil?
Porque os esquemas mantêm a pessoa presa em formas antigas de se relacionar.

Por exemplo:
  • No esquema de subjugação, separar-se pode significar sentir culpa por dizer “não”
  • No esquema de abandono, pode significar medo de perder o vínculo
  • No esquema de dependência, pode vir como sensação de incapacidade
  • No esquema de defectividade, como medo de ser rejeitado ao se mostrar

Ou seja, a pessoa até deseja se posicionar, mas emocionalmente ainda está vinculada a padrões antigos.
Ela não está apenas “escolhendo diferente” —ela está tentando romper com formas profundas de funcionamento emocional.

O papel da Terapia do Esquema:

Na prática clínica, grande parte do trabalho é justamente ajudar o paciente a fazer esse movimento de separação.
Isso envolve:

  • Identificar os esquemas que foram construídos a partir dessas adaptações iniciais
  • Reconhecer como eles ainda operam nas relações atuais
  • Desenvolver um “adulto saudável” capaz de regular emoções e fazer escolhas mais conscientes
  • Aprender a se posicionar sem viver isso como ameaça de perda ou rejeição

A relação terapêutica, inclusive, tem um papel fundamental aqui.
Porque é dentro de um vínculo seguro que o paciente pode, pela primeira vez, experimentar algo diferente: ser ele mesmo sem perder o outro.

Separar-se não é se afastar, é se tornar: é deixar o “não eu”, moldado para manter vínculos, e começar a sustentar o “eu sou” — uma existência mais própria e autêntica.

Talvez a maior distorção sobre esse tema seja a ideia de que se separar é se afastar.
Mas, na realidade, muitas pessoas nunca estiveram verdadeiramente em relação estavam apenas adaptadas.

Separar-se é sair da adaptação automática e começar a existir de forma mais inteira.
É deixar de viver apenas para manter o vínculo e começar a construir vínculos onde você também existe.
Um ponto essencial: Se alienar foi necessário. Foi o que permitiu que você chegasse até aqui.
Mas a separação é o que permite que você construa uma vida que faça sentido para você.
E isso não acontece de uma vez: é um processo.
Um processo de reconhecer, sustentar e, aos poucos, se autorizar a ser quem você é, mesmo em relação com o outro.
 
 
bottom of page